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Crítica de Cinema

Proteger os calcanhares

A Guerra de Tróia é narrada na Ilíada, o poema épico grego, atribuído a Homero, que ainda nunca li, lacuna que colmatarei em breve. Esta celebérrima cidade da Ásia Menor foi destruída por um avassalador incêndio- consequência da guerra- segundo as últimas descobertas, por volta do 1184 a.C.

A única versão que conheço da sua história é a adaptação livre do filme realizado por Wolfgang Peterson (2004) que conta com a desmesurada presença de um Brad Pitt (Aquiles) sempre enfeitiçador, apesar de provavelmente demasiado loiro para um grego. O namoro de Brad com a câmara, preenche o écran, só quebrado pela experiência de Peter O´Toole no papel do Príamo (rei de Tróia) e pela forte presença de Eric Bana no papel de Heitor (príncipe de Tróia) - segundo a minha opinião livre. Mal me recordo da Páris, interpretado por um Orlando Bloom, que outros lembrarão melhor que eu certamente- a memória, como se sabe, é selectiva.

A Guerra de Tróia é uma história de contínuos enganos, em que a verdade se esconde sob mentiras universais, infinitamente repetidas. Ora vejamos: Páris apaixona-se pela bela Helena, e "rouba-a " ao seu anfitrião Menelau, que é como quem diz mordeu a mão que lhe deu de comer. Este sentindo-se desonrado (atenção não digo desamado, que isso seria de somenos importância) pretende recuperar a perdida dignidade - o ingénuo acreditava que a dignidade se poderia perder através do desrespeito de outrem, desconhecia que a dignidade só se perde quando nos desrespeitamos a nós mesmos. Reuniu apoios disfarçados de "solidária camaradagem", comandados pelo seu irmão Agamémnon, quando na verdade a força motriz que os movia era sobretudo a sede de poder.

Em Tróia reinava Príamo, um rei nobre e justo, respeitoso dos seus súbitos, demasiadamente respeitoso, como se verá, um rei que amava e respirava Tróia. Este rei, que amava a paz, disse ter conhecido vários motivos para a guerra, mas ainda nunca tinha combatido por amor, parecendo-lhe este o mais nobre dos motivos. O seu filho Heitor, o futuro rei, era mestre na arte de guerrear e herdara do pai as suas nobres qualidades. Páris, o imaturo Páris, aguardava ainda por uma maturidade e rectidão que tardava em chegar. Quando defronta Menelau esconde-se covardemente do desafio que ele próprio lançara, sob a força e valentia do seu irmão velho. Mas Páris humilhado perante si, os seus e todos os outros, desapontado, quer ser gente. Olha-se reflectidamente, quer saber de si, reconhece que nunca terá as capacidades de guerrilha do irmão mais velho e inventa-se enquanto "soldado" da sua própria guerra num projecto de arqueiro. E pratica solitário, esperançado de si.

Aquiles não morria de amores pelo ambicioso e sem princípios rei grego Agamémnon, recusa-se a lutar, encontrara um colo tranquilo, no inferno da guerra, na sacerdotisa troiana. Também ele, não está ali pela honra manchada de Menelau, está ali pela sua glória, pela eternidade do seu nome e dos seus feitos. Mas o inesperado amor e a sua profunda discordância com Agamémnon, quase que o salvam da desejada imortalidade da memória. Heitor pressente a desunião dos gregos, a retirada de Aquiles e dos seus mirmidões, e como bom estratega alerta o pai, no sentido de aproveitarem a desunião. Avisa que se naquele momento atacarem, provocarão a união dos gregos e tudo será mais difícil. Mas o respeitador rei, não valoriza a inteligente opinião do filho, opta pela dos supersticiosos conselheiros e escolhe a luta.

Os troianos atacam e contra a ordem e vontade de Aquiles- chefe dos mirmidões- o seu amigo Pátroclo, ávido da arenalina, disfarçado com a armadura de Aquiles, conduz os mirmidões para o campo de batalha. A semelhança física com Aquiles e as suas armas enganam (sempre o engano da aparente superficialidade) os seus colegas de armas e o próprios troianos, entre eles Heitor que fere de morte Pátroclo. Desvairado Aquiles, com profundo desdém pelo homem que julgava ter morto Aquiles, desafia-o para um combate mortal. O grande combate, entre dois dos exímios conhecedores da arte da guerra- Aquiles e Heitor- termina com a morte de Heitor. Aquiles arrasta pelo chão, o cadáver do seu inimigo. Mais tarde, a pedido de Príamo, restituiu o cadáver à família para a celebração dos rituais fúnebres. Curiosamente Aquiles despede-se de Heitor com - Até breve, meu irmão- reconhecendo-lhe interiormente as suas qualidades, aguarda para breve o encontro entre ambos e assume a efemeridade da sua própria vida.

Como é sabido, os gregos tomaram Tróia, simulando perder a guerra. Criaram o engodo do cavalo de Tróia, a que os troianos não souberam resistir. Páris, o imberbe Páris, foi visionário, segundo ele o cavalo de madeira devia ser queimado na praia, Novamente o seu pai, o nobre e sensato Príamo, ouviu o bom senso enganador dos seus conselheiros. Este magnífico rei nunca tomou o partido dos seus acertados familiares, deveria temer acusações de favorecimento familiar.

Ulisses tinha a sua própria guerra para travar, não podia falhar a sua presença no embuste. É o frágil Páris, que com o seu arco e invulgar pontaria revela o ponto fraco de Aquiles - o calcanhar e lhe negou o encontro duradouro com a sacerdotisa troiana por quem lutou.

O enredo épico desta guerra revela-se colossalmente brilhante, o suficiente para sobreviver poderoso até aos nossos dias. Ninguém me convence que Helena conhecia o torturado Aquiles. Se alguém os tivesse apresentado, o desinteressante Páris, não teria de Helena mais do que um olhar desinteressado. Ganharíamos um casal feliz e digamos satisfeito, poupava-se uma cidade e muitas vidas.

Perdia-se uma fascinante epopeia… Mas vale a pena aprender com o passado: A verdade engana-nos vezes de mais.

E já agora, protejamos os nossos calcanhares. E se não somos bons na murraça, teremos que aprender outras artes.

Maria H. M. [20-01-2008]



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