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Cinema: Entrevista NN

"Efeitos Secundários", a primeira longa-metragem de Paulo Rebelo está a gerar expectativa

(entrevista a Paulo Rebelo de Teresa Mourão Ferreira)

Paulo Rebelo, 38 anos, estudou montagem na Escola Superior de Teatro e Cinema. Com várias curtas-metragens, foi co-argumentista, assistente de realização e montador - em duas longas de João Pedro Rodrigues - "O Fantasma"-2000 e "Odete"-2007 - e uma curta de Pedro Fortes. Estreia-se, agora, como realizador, assinando também o argumento, em "Efeitos Secundários", uma longa-metragem que tem como protagonistas Maria João Luís, Nuno Lopes e Rita Martins.

"Um melodrama contemporâneo", "Efeitos Secundários" oferece-nos uma lição de amor, esperança e solidariedade. Baseado nos filmes de Douglas Sirk, dos anos 50, mais concretamente em "Tudo o que o céu permite", relata o encontro de três solidões, numa sociedade conservadora, pouco informada e que vive de aparências.

Produzido pela C.R.I.M. Produções, com financiamento do ICA e da RTP, o filme concluiu a sua rodagem e tem lançamento previsto para o final de 2008. Nas palavras de Paulo Rebelo, as filmagens decorreram "muito bem e com muita animação", contando com um trabalho notável de todos os actores e a ajuda das gentes de um pequeno bairro da Costa da Caparica, onde o realizador nasceu e cresceu.

Teresa Mourão Ferreira, visitou o local da rodagem e entrevistou Paulo Rebelo.
Rodagem do filme "Efeitos Secundários" de Paulo Rebelo (em cima, na foto)

















Teresa Mourão-Ferreira - Como está a ser a experiência?
Paulo Rebelo - Está a ser boa. É um bocadinho estranha, porque se passa tudo no sítio onde cresci e vivi desde sempre. As minhas vizinhas todas - que me viram crescer -, a minha mãe, o café onde eu ia todos os dias, com uma equipa de cinema lá a trabalhar… É um pouco estranho. Às vezes quase que se mistura o trabalho com uma vivência do dia-a-dia.

TMF - Quando surgiu a ideia deste filme?
PR - A ideia surgiu há uns tempos, por volta de 2002-2003, a partir de um filme do Douglas Sirk, que é o "All that heaven allows" ["Tudo o que o céu permite"]. Foi quase por brincadeira, numa conversa com a Christine Reeh e a Isabel Machado, na C.R.I.M. Produções. Estávamos a pensar num filme sobre discriminação e, a falar um pouco por alto, lembrei-me desse e de que o Fassbinder o adaptou numa espécie de remake intitulado "Ali: Fear eats the soul" ["O medo come a alma"]. Gosto bastante dos dois filmes. O filme do Douglas Sirk é dos anos 50 e o do Fassbinder da década de 70. Fassbinder fez um trabalho notável, pegou na matriz do Douglas Sirk, transportou tudo para um sítio que conhece bem, Munique, e fez uma adaptação à sua época.

TMF - Assim sendo, presumo que me dirá que o seu filme é também um remake.
PR - Não, mas é quase. Eu parti um bocadinho da mesma ideia. Pensei "Então e se eu pegasse no filme do Douglas Sirk e transportasse tudo para a Costa da Caparica, que é o sítio que eu conheço melhor?". No "All that heaven allows", há uma viúva que se apaixona por um jardineiro muito mais novo. Em "Ali: Fear eats the soul", encontramos também uma viúva, desta vez apaixonada por um jovem negro que trabalha numa oficina de carros. Ou seja, ao problema da idade e da classe junta-se aqui uma questão racial. Comecei a sentir o desejo de fazer algo desse género, pegar no trabalho do Douglas Sirk e pensar no tipo de história que poderia acontecer se a acção decorresse na Costa da Caparica.

OS CABELEIREIROS SÃO CENTROS DE INFORMAÇÃO
"Efeitos Secundários"
















TMF - E a que conclusões chegou?
PR - Lembrei-me de que a minha mãe foi cabeleireira durante muitos anos e que isto se poderia passar, exactamente, num cabeleireiro. Nas pequenas localidades, estes estabelecimentos acabam por se tornar centros de informação. Um cabeleireiro poderia ser o centro da história. Pensei numa cabeleireira, viúva e de meia-idade. No Douglas Sirk havia a questão da classe, no Fassbinder a questão racial e eu gostaria de utilizar a questão do HIV, um dispositivo dramático que julgo funcionar também muito bem nesta história. Além disso, é uma coisa de que não se fala. Note-se que a minha intenção não é fazer um filme sobre a Sida, mas a verdade é que isso existe, é real e não pode ser ignorado.

TMF - A Costa da Caparica é um lugar de contrastes. O emaranhado urbano que aí se instalou nas últimas décadas do século XX destoa da lindíssima paisagem natural. Curioso tê-la escolhido para cenário…
PR - É, de facto, um local de contrastes únicos, óptimo para uma história deste género. O sítio onde vivo, apesar de, na época balnear, ser bastante frequentado, transforma-se um pouco em subúrbio, no resto do ano. Um subúrbio diferente, por sinal, diria quase uma "aldeia urbana". Eu queria filmar esses lugares que conheço bem. Considero a Costa muito fotogénica mas penso que nunca foi filmada. Há locais naquele sítio que são muito bonitos, como a Arriba Fóssil, e eu sentia o desejo de pôr isso em imagens. Ao longo do filme, a própria terra acaba por se tornar quase uma personagem.

TMF - Mais concretamente de que trata a história que nos conta neste filme?
PR - É uma espécie de triângulo amoroso entre a cabeleireira, Laura [Maria João Luís], uma rapariga rebelde chamada Carmo [Rita Martins], e Rui, um jovem pescador [Nuno Lopes]. A cabeleireira vive só e leva uma vida vazia. Tem dois filhos, que já saíram de casa, trabalha sozinha num pequeno cabeleireiro de bairro e cuida dos animais vadios. Trata duma cadelinha, que tem uma casota perto de uma árvore, ao lado do cabeleireiro. Carmo é cliente de Laura e também ajuda a tomar conta da cadela. A cabeleireira gosta muito da rapariga por também cuidar dos animais. A rapariga é um bocadinho rebelde, com um aspecto alternativo, eu diria mesmo punk, e não tem a aprovação das pessoas do bairro nem dos outros clientes do cabeleireiro e do café. Ela dá muito nas vistas e não está minimamente interessada em agradar àquela gente.

TMF - Mas estas duas solidões acabam por se juntar…
PR - Sim, entre duas pessoas que, à partida, não têm nada a ver uma com a outra vai nascendo uma grande amizade. Quando surge um boato de que a rapariga está seropositiva, Laura corre em seu auxílio e acolhe-a. Vê que Carmo está a dormir na rua, porque deixou de ter dinheiro para a renda, e não hesita em levá-la para casa - está frio, está a chover e ela não é capaz de deixar a rapariga a dormir na rua. Faz parte do seu feitio, não tem nada a ver com caridade. Não é capaz de ver pessoas sofrerem; é como com os bichos. Vê a rapariga ao frio e leva-a automaticamente para dentro de casa, sem sequer pensar nas consequências.

CONFLITO DE GERAÇÕES
"Efeitos Secundários"


















TMF - Que efeitos é que essa sua acção teve?
PR - Todas as clientes, quando descobrem que a rapariga está em casa dela, tentam fazer um boicote ao cabeleireiro. Os filhos também se revoltam com a mãe, não percebendo que razão a terá levado a acolher a rapariga. Ninguém acha normal aquilo que está a acontecer.

TMF - Entretanto, Laura, que dedica a vida aos outros, vê uma oportunidade para pensar também em si.
PR - Exactamente. Quando conhece Rui, um pescador muito mais novo, Laura volta a sonhar. No início, a cabeleireira começa por ser muito incentivada pela rapariga, mas, a pouco e pouco, as coisas mudam. Carmo tinha arranjado uma mãe adoptiva e, de repente, vem este pescador intrometer-se entre as duas e quebrar essa relação. Gera-se um conflito entre as três personagens.

TMF - Quantas viúvas e divorciadas desistem de ser felizes ao lado de um novo amor porque os filhos se opõem a tal relacionamento?! Muitas mulheres, ao ver o filme, vão identificar-se com Laura…
PR - Espero que sim, se bem que neste filme há a possibilidade de as pessoas se identificarem com várias personagens. Laura faz aqui aquilo que ninguém tem coragem de fazer. Coisas que, por causa das imposições da sociedade, costumam ficar pelo pensamento, pelo sonho, pelo caminho. Laura ignora aquele tipo de barreiras e age sem pensar nas normas sociais. Surge como uma personagem um pouco apagada mas, com o desenrolar da acção, vai crescendo. No fundo, é ela que acaba por orientar os destinos daquela gente e fazer com que todos se entendam e vivam juntos, de alguma maneira.

TMF - Porquê "Efeitos Secundários"?
PR - Carmo está a tomar uns comprimidos e a certa altura tem de mudar a medicação. Os efeitos secundários são bastante fortes, o que a deixa um pouco descontrolada e agressiva. "Efeitos Secundários" tem a ver com os comprimidos que a rapariga toma e também com as consequências que as acções humanas têm nos relacionamentos. As pessoas, ao tentarem ser felizes, podem causar, sem querer, efeitos secundários nos outros.

A C.R.I.M. É UMA PRODUTORA DIFERENTE

TMF - É a primeira vez que trabalha com a C.R.I.M. Produções. Como nasceu esta parceria?
PR - Já havia uma amizade com a Christine Reeh e a Isabel Machado. A ideia sempre foi fazer o projecto com a C.R.I.M., que está também, de certa forma, a começar. Esta primeira longa acaba por ser uma aventura para todos nós. A C.R.I.M. é uma produtora diferente das outras, não vê o filme como apenas "mais um". O relacionamento da produção com o realizador e com os projectos é muito próximo e interessado, o que começa a ser raro no mercado português mas que eu valorizo bastante.

TMF -Neste filme, procura explorar a força das emoções no relacionamento humano. De que forma é isso conseguido?
PR - Eu procurei escrever uma história em torno das emoções. No entanto, houve cenas com que eu não estava muito contente no papel, a que os actores conseguiram dar a volta, oferecendo vida e emoção. No papel, às vezes, a cena parece uma coisa um pouco morta, e, de repente, os actores dão-lhe a emoção que pretendemos mas não conseguimos expressar completamente na escrita.

TMF - Para além de Maria João Luís, Rita Martins e Nuno Lopes, o filme conta com actores como Teresa Madruga ou Nuno Gil. É comum um realizador "estrear-se" com uma qualidade de representação assim?
PR - Não sei… O que posso dizer é que o trabalho com os actores tem sido fantástico. Estou com muita sorte na escolha que fiz. Juntos exploramos o argumento e descobrimos a melhor maneira de dizer os diálogos e estar em cena. Tem sido um trabalho fantástico porque eles entraram muito depressa na personagem que eu idealizei. É tudo muito fácil, quase só um acerto de pequenas coisas. Acho a Maria João Luís uma actriz absolutamente incrível. A Rita Martins também tem sido fantástica. Tem um papel muito diferente do da Maria João Luís mas funciona muito bem com ela. Fazem um contraste muito engraçado.

UM MELODRAMA CONTEMPORÂNEO
"Efeitos Secundários"


















TMF - Apresenta o filme como "um melodrama contemporâneo"…
PR - Sim. Tem muito a ver com os melodramas dos anos 50. Pensei em muitos filmes, nos do Nicholas Ray - na medida em que a rebeldia da miúda tem muito a ver com a imagem de James Dean em "Rebel without a cause" ["Fúria de Viver"]) -, nos do Almodóvar - uma série de coisas da história dos cabeleireiros e das mulheres em que há um lado quase kitsch, que também quis aproveitar - e no cinema em geral.

TMF - Existem traços auto-biográficos seus em "Efeitos Secundários"?
PR - O filme é muito pessoal, com um aglomerado de coisas que eu vivi e que as pessoas à minha volta viveram. Tem muito dos filmes que vi e do que vou observando ao longo da vida... Sempre que há algo que eu penso que se pode encaixar nas personagens eu encaixo. Faço um exercício engraçado, que é colocar muitas coisas que eu vivi em personagens femininas. Isso obriga-me a um distanciamento que acaba por ser um grande desafio. Na verdade, ponho coisas minhas e das pessoas que conheço em todas as personagens.

TMF - É verdade que a sua mãe tem estado presente nas filmagens?
PR - Sim e está muito contente com todo o filme. Às vezes, fica nervosa. Isto, no fundo, também é um pouco uma homenagem à minha mãe.

TMF - E as pessoas do bairro, como estão a reagir?
PR - As minhas vizinhas entram no filme a fazer figuração, o meu gato entra no filme… Todos no bairro querem entrar no filme e acaba por ser um bocadinho confuso às vezes. Mas está a correr bem e a ser muito divertido. É uma animação. Toda a gente, de alguma forma, ajuda e arranja coisas. Tenho-me surpreendido muito. No princípio até pensava que ter ali aquela gente toda me fosse inibir um pouco. Mas não, bem pelo contrário. Estou de tal maneira absorto no trabalho e as pessoas têm colaborado tanto que, afinal, não me faz confusão nenhuma. Até acho piada.

A SOCIEDADE PORTUGUESA ESTÁ AINDA BASTANTE FECHADA
"Efeitos Secundários"

















TMF - Na nota de intenções do filme, afirma que "a história se desenrola numa sociedade preconceituosa, ignorante e fechada". Na sociedade portuguesa, essas características persistem, agravam-se ou, apesar de tudo, recuam? Qual é a sua visão do que observa?
PR - Acho que persistem… pelo menos. Eu espero que as coisas mudem mas a verdade é que ainda vivemos numa sociedade fechada e a história do filme poderia acontecer tal e qual a estou a fazer. Bem, se calhar algumas coisas estão um pouco exageradas para que o drama esteja mais claro mas isto pode acontecer perfeitamente hoje, em 2008, numa terra como a Costa da Caparica, ou mesmo em Lisboa. O que é preocupante. Por incrível que pareça, as pessoas não têm muito a noção do que é o HIV. A sociedade portuguesa ainda é bastante fechada, não só em relação a isso. Falta informação. Mesmo eu, quando comecei a pesquisar, dei-me conta de que não sabia muita coisa.

TMF - Qual foi a maior descoberta que fez ao longo da pesquisa?
PR - A história relativa aos medicamentos e aos seus efeitos secundários. Não fazia ideia de como eram os medicamentos, o poder que têm para dar qualidade de vida a estas pessoas. Com o avanço da ciência e da tecnologia, hoje em dia, a Sida já não é uma fatalidade. E também descobri a história dos efeitos secundários, que em alguns casos podem ser bastante fortes e desagradáveis.

TMF - Num filme estreado recentemente, "A Outra Margem", de Luís Filipe Rocha, os protagonistas são um travesti, um jovem com síndroma de down e uma mãe solteira. Também o seu filme se ocupa de pessoas marginalizadas. Estaremos a assistir a um tema recorrente da história do cinema ou perante a convicção de que a exclusão é cada vez mais um traço comum nas sociedades e, em particular, na portuguesa?
PR - Não sei se é um tema recorrente, não sei se é um traço comum…. Na sociedade há cada vez mais pessoas marginalizadas. A mim isto interessa-me, pessoalmente, porque já me senti excluído. Talvez por isso realce personagens que estão um pouco na margem, um pouco fora, e que têm a coragem de fazer "aquilo que não é suposto", indo muitas vezes para além dos seus limites. Estas personagens excluídas e que estão na margem são sempre mais interessantes que as personagens normais. As "pessoas normais" não têm graça.

TMF - Considera que a discriminação e a intolerância ainda assombram muitos dos nossos relacionamentos?
PR - Sim, bastante. A sociedade portuguesa é estranha. Aparentemente, é tolerante e permissiva mas consegue ser conservadora e mesmo agressiva. Há muito o medo de darmos o passo certo em frente. Não sei se isto vem do fascismo ou do que vem… Anda tudo muito preocupado com o que os outros pensam ("o que é que os outros vão pensar se eu fizer isto?") em vez de investir naquilo que deveria pensar e fazer. Se pensássemos mais por nós e não tivéssemos medo de realizar aquilo que consideramos correcto, era tudo muito mais fácil. Seria o caminho para a felicidade. Se é que isso existe…

DOU POR MIM A PENSAR NO PRÓXIMO FILME…

TMF -E Laura vai ter coragem para seguir a sua felicidade?
PR - Ela tem coragem, acho que sim. Agora se vai ser feliz ou não, não se sabe. O filme tem um final em aberto, um "falso final feliz". Tem muito a ver com os melodramas, com os seus finais dúbios, em que se ficava a pensar "será que?..."; com os filmes originais, que também acabam de uma maneira semelhante, e com o amor que eu tenho a estas personagens. Apetecia-me dar-lhes uma possibilidade de serem felizes, porque é isso que eu considero justo nesta história. No fim do filme, há uma esperança.

TMF - Prevê-se que o filme seja apresentado ao público, em finais de 2008. Já tem algum projecto para depois do seu lançamento?
PR - Tenho muitas ideias, que vão tomando forma com o tempo. Há ideias que se tornam mais presentes que outras. Às vezes já dou por mim a pensar no meu próximo filme…

Editado no Notícias do Nordeste em [01-03-2008] (Entrevista de Teresa Mourão Ferreira)



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